Footloose – uma distopia para pensar educação

Assisti aos dois filmes Footloose (1984 / 2011) no ano passado. Nunca me interessei pela sinopse, mas me rendi em ver pela dança, pelo Milles Teller e pelo Kevin Bacon (sim, fiquei curiosa, depois positivamente surpresa os vendo dançar lindamente).

O filme conta a história de uma cidade em que havia uma proibição do rock e da dança. Conta-se que, após um acidente de trânsito fatal com um jovem da cidade, a proibição veio no intuito de prevenir novos casos como este, inibindo comportamentos não aprovados pela sociedade naquele contexto (afinal, acreditava-se que rock e dança levavam ao consumo de álcool, incitação sexual, transgressão de leis, etc).

Sempre achei o enredo do filme sem sentido, tão caricato que, ao invés de engraçadinho, nunca havia me despertado interesse. Esse absurdo que o filme apresenta, contudo, tem sido tão presente em nossos dias, que tive um “estalo”, um “insight”. O filme, que, até então, a meu ver, não passava de um longa para adolescentes com dancinhas e baile de formatura, se tornou uma distopia gritando aos meus olhos. Vou explicar.

Ao buscar o termo distopia no dicionário do Google, retorna um dos seguintes significados: “lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação; antiutopia”. Ou ainda, “qualquer representação ou descrição de uma organização social futura caracterizada por condições de vida insuportáveis, com o objetivo de criticar tendências da sociedade atual, ou parodiar utopias, alertando para os seus perigos”.

O que os filmes Footloose retratam?

Um movimento de não olhar para as questões centrais, os problemas que realmente estavam presentes na cidade. Se houve um acidente fatal com um adolescente, poderiam ser repensadas as legislações de trânsito, a sinalização das vias, os programas de educação para o trânsito e formação de condutores, as relações familiares, o trabalho com o luto e os enlutados, até mesmo os critérios de concessão do veículo dos pais para os adolescentes.

Como não fazem uma análise das questões que realmente tem conexão com o problema, as medidas adotadas são desconexas ao problema, e não trazem alternativas de prevenção e cuidado. A cidade opta por proibir o rock e a dança. O filme, inclusive, mostra uma cena em que dois carros conduzidos por jovens se colocam em risco na estrada como forma de diversão, condutores e passageiros sem cinto de segurança, em alta velocidade, pela contramão. Isso tudo mesmo após a tragédia vivida na cidade.

As proibições impostas por lei acontecem sem que os próprios adolescentes e jovens participem das decisões, que afetam diretamente a seus hábitos, modos de vida, diversão, contexto. Não há diálogo entre quem “protege” e quem é “protegido” por estas proibições, não há debate, parece que não são levantadas alternativas.

E o que Footloose tem a ver com os processos formativos e a educação?

Um ponto inicial refere-se ao termo footloose, que, segundo o Cambridge Dictionary significa algo como “livre em fazer o que gosta e ir aonde quer por não ter responsabilidade”, em minha tradução simplória.

O título afirma a ideia que aquela cidade em que era proibido dançar e ouvir rock produziu em relação aos adolescentes e jovens, vistos como descompromissados e irresponsáveis.

Quais discursos tem sido produzidos, no Brasil, nos últimos dois anos, pelo menos, em torno da educação, e dos processos formativos?

Vamos recordar um pouco:

Em 2019, o então Ministro da Educação do Governo Federal, Ricardo Vélez Rodríguez, diz o seguinte: “A ideia de universidade para todos não existe… As universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica [do país].”

Ainda no início de 2019, o mesmo ministro tem como uma das primeiras propostas para a educação do Brasil a execução do Hino Nacional e a produção de filmagens das crianças por parte dos professores. Nessa mesma proposta, enviada em carta pelo então ministro da educação às escolas, foi solicitara a leitura da carta aos professores, alunos e demais funcionários, entoando o slogan deste Governo Federal.

Já no final de sua passagem pelo Ministério da Educação, dentre outras posturas bizarras, Ricardo Vélez Rodríguez sugere mudar a forma como alguns fatos da história do Brasil são retratados nos livros didáticos. Fatos que são estudados por pesquisadores de diferentes áreas, com metodologias e análises que envolvem muito estudo, e entram nos materiais didáticos com todo o critério necessário.

Invalidando os estudos, pesquisas e espaços de educação, o segundo Ministro da Educação deste governo atuou de maneira muito ativa na invalidação dos espaços acadêmicos, como pode ser relembrado por aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e em vários outros lugares, basta buscar na internet.

Ah! E os três primeiros Ministros da Educação (Ricardo, Abrahan e Carlos Alberto) tinham erros ou mentiras em seus currículos.

Todos estes posicionamentos vêm reforçando um olhar estereotipado dos lugares de educação, docentes, acadêmicos e pesquisadores, algo como os footlooses no filme, não é mesmo? Este discurso é replicado nas redes sociais, por políticos, religiosos e por pessoas comuns.

Ora, se há problemas com a educação (e há!), não são eles que entram em debate. Mencionam que há problemas com a metodologia do construtivismo e pedagogia da autonomia, mas não dizem de formas alternativas de ensino, não chegam a tratar da interface com a rede (saúde, social, saneamento, direitos humanos, etc), para pensar soluções que digam respeito a questões amplas pelas quais as crianças por aqui vivem em seus cotidianos. Não se fala das condições de trabalho dos professores, de ver estatuto, benefícios, formação, tampouco se estabelece diálogo com estes profissionais que atuam nas linhas de frente da educação. Os projetos são desconexos aos problemas. Ou cria-se problemas cujas soluções são estas amplamente verbalizadas.

Não se fala em educação. Não há diálogo.

Falar em educação, universidade, espaços formativos em geral, em nosso contexto social atual, é depreciativo. Falar em pesquisar soa, no imaginário coletivo do senso comum de muitas pessoas por aqui, como algo manipulativo e maquiavélico. Fala-se em desenvolvimento ideológico, como se isso fosse um pecado, como se este próprio discurso não fosse também uma ideologia.

Os espaços formativos entram na lógica do consumo, em que há um prestador que fornece um diploma e um cliente que o adquire. São desqualificados os lugares de desenvolvimento intelectual, de educação, de formação; os lugares do aluno, do professor, do pesquisador; os corredores, os grupos, as rodas de conversa, os debates.

Há muito na educação que escapa a essas lógicas. Não se trata somente de aprender linguagens e raciocínio lógico-matemático. É desenvolvimento pessoal, criação de oportunidades, para as pessoas, e para o país. Sem educação não há tecnologias ideológicas, tecnologias de cuidado, nanotecnologias, robóticas, mecânicas, elétricas.

Achincalhar a legitimidade dos processos educacionais é entoar um Ode à Boçalidade. Se bem que, sem pensar educação, cultura também não tem espaço, e nem o Ode à Boçalidade tem vez em ser interpretado.

Em Footloose, a cidade proibia dançar e ouvir rock. Em Brasil-2020’s, também não tem música, nem cor, nem dança, nem escola, nem pesquisa, nem aluno, nem professor.

A pandemia escancara o que já estava nos panos de fundo, de maneira mais velada. Não importa as condições de trabalho, não importa as experiências de formação, não importa a qualidade das experiências escolares – o que vale é a tal meritocracia, o cumprimento de calendários, a realização do ENEM e das provas de avaliação de ensino básico. A pandemia tirou um pano do que estava se formando há algum tempo, sem ser notado até ser grande demais.

O que aconteceu em Footloose?

Mesmo com a proibição, dançava-se às escondidas. Os jovens se encontravam, se aventuravam, corriam perigo. Mesmo quem não sabia dançar, acabava, nos movimentos de grupos, encontrando quem mostrasse possibilidades de se mover e fazer belos passos de dança.

Mas não era suficiente! Eles queriam a possibilidade de se terem a experiência do baile da cidade. Liberdade para dançar sem se esconderem.

Em seus movimentos coletivos, transgressões e rebeldias, conseguiram contornar a situação de interdição de seus corpos. Criaram estratégias, juntos. Dividiram responsabilidades. Derrubaram a proibição e conseguiram dançar no baile da escola.

Pensando no lugar onde estamos em relação à educação, podemos notar muitos incrédulos com as “interdições”, muitos as apoiam, e alguns seguem nos movimentos de transgressão acreditando e fazendo educação e processos formativos. Ainda tem gente por aí que não trata os espaços formativos como fábrica de diplomas em canudos, e, para sobreviverem nessa distopia, passam pelas frestas, quase despercebidos.

Por quê a dança e a música são tão importantes?

Elas representam o próprio movimento da vida, o desejo, a liberdade.

Talvez tenhamos que dançar escondidos um pouco mais, formar coletivos, trocar passos de dança, até contornar esse desvalor à educação.

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