Sobre amor, amar e os distanciamentos destes afetos

É preciso pensar amor(es) além do romântico, naquele formato comercial-colonial de Disney, Hollywood e das novelas, em que algo mágico une duas pessoas (lindas, brancas, hétero, unidas magicamente pelo destino, dependentes).

É preciso pensar amor feinho, abraçar amor feinho, amar amor feinho.

Feinho porque não tem o glamour das telas. Feinho porque não está fora do seu corpo, nem cabe a outros. Amor feinho que cabe em você e expande.

Amor que é feinho porque não falta (o que falta leva ao desejo de consumo, a dependência de um modelo pronto para usar).

“Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.” – Adélia Prado.

Adélia, obrigada por me ajudar a dar nome pra esse amor visceral, ancestral, real, que “cuida do essencial”, que “não fica velho”, que “planta beijos de três cores ao redor da casa”, e que é feinho assim.

Se todo romance tem final feliz, é porque o conto termina quando o casal se encontra, quando a criança nasce, quando a donzela acorda, mas não conta os pontos finais.
A experiência do abandono pode surgir em relacionamentos amorosos, parentais, etc. E o abandono, quando acontece, vem na parte dois, após o “viveram felizes por muito e muito tempo”.
Ora só finda, só parte, vai, não volta, ora fica ali, oco, eco, vazio, distante no mesmo sofá. E todos nós, sociedade, coletivo, temos ainda muito pudor em falar disso.
Se o início é o parto, o fim é a partida. Amor é medo e movimento.
Falar de amor como Hollywood nos vende, é fazer vendas para olhar o amor. É simplificar relações complexas. É tornar mágicas as relações que demandam muito trabalho, dedicação, desejo, escolha.
Amores não são morais. Talvez Moraes em seu Banho de Amor:
“Só você me leva e eu vou além do bem e do mal
Tomar um banho de amor nas águas do temporal”.
Amor pode doer, e dói, eventualmente – no parto e na partida.

bell hooks chama para olhar o amor além do suprir das necessidades básicas. PRESENÇA, ATENÇÃO, CUIDADO, TROCA, são algumas expressões de amor além do prover.

bell hooks trás no texto “Vivendo de amor” que, em especial nas famílias de pessoas negras ou que enfrentam contextos de pobreza, que o adulto provedor de sua geração necessita dedicar-se fortemente às durezas cotidianas de trabalho para conquistarem o sustento, ou a ascensão. Ela está falando de um pós-abolicionismo que firmou distâncias sociais imensuráveis.
Mas… não seria surpresa se notar em nossa gênese relações parentais em que presença e demonstração de carinho sejam “luxo”, enquanto o amor torna-se o prover – não precisamos ir longe, nossos pais, nossos avós, como eram suas relações parentais?

Hoje notamos outras camadas que podem reforçar esse abismo de presença – as novas configurações das relações de trabalho (vou falar sobre isso nos próximos posts).

Racionalmente entendemos as demandas de trabalho e a não priorização de que o adulto se sente com a criança para brincar, conversar, ou deixe de atender ao seu telefone por estar em um momento de presença com a criança. No entanto, algo dessa experiência marca, e permanece de forma diferente em cada um, seja nas experiências afetivas futuras, nas inseguranças, nos comportamentos alimentares, nas ‘faltas’.
“Aquele tipo de carinho que alimenta corações, mentes e também estômagos. No nosso processo de resistência coletiva é tão importante atender as necessidades emocionais quanto materiais” ~~ bell hooks.

Depois de uma semana cheia para muitos, dias corridos por conta de feriados para tantos, foco naquilo que importa…

O que importa?

Para nós, da cultura de desempenho, o que importa é “dar conta”, é produzir ao máximo, pois acreditamos que o tal sucesso só depende do desempenho individual, “quem quer consegue”.

Han diz que nossa nós, nesse recorte social e e cultural, nos apontamos “empreendedores de nós mesmos”, sendo livres para o sucesso. Livres para produzirmos ao máximo e chegarmos tão alto quanto os esforços individuais alcançarem.

1: amor não entra na lógica do desempenho, não é mensurável em uma lógica de produtividade.

2: essa própria lógica da cultura do desempenho e do empreendedor de si não deixa espaço para sensibilidades e emoções, reforçando estigmas de que o que não gera desempenho é perda de tempo.

E o amor segue a esmaecer. Tempo para carinho, presença, sentar no chão, colocar as mãos na terra, cheiro no cangote, descansar, dormir??? Se não gera desempenho, não há tempo.

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