O ser humano é bom ou mau?

Essa é uma daquelas longas discussões que há séculos colocam os filósofos a se questionarem. As produções teórico-religiosas também abordam essa questão da essência humana. Mas afinal, o ser humano, em sua essência, é bom ou mau?

Minha ideia ao apresentar o tema não é apresentar uma verdade, mas instigar questionamentos, pois acredito que apenas questionamentos produzem inquietações e mudanças. Abaixo do post indico a bibliografia utilizada na produção desses questionamentos.

No processo de psicoterapia, por exemplo, ao contrário do que muitos pensam, as mudanças não são produzidas por conselhos, mas por incômodos e questionamentos – embora o aconselhamento também tenha seu espaço.

Como todos os debates acerca do mundo, há vários pontos de vista opostos, portanto é fundamental conhecer o filósofo, o período histórico, e sua própria história de vida.

Thomas Hobbes (1588 – 1679) foi um filósofo inglês que acreditava que o homem é essencialmente mau, e que cedo ou tarde todos exerceriam ações que mostrassem essa essência perversa. O século XVII foi marcado pelas colonizações, reformas religiosas, e pelas primeiras ideias capitalistas. Hobbes, com sua visão pessimista, defendia a ideia que que os desejos humanos giravam em torno de pensamentos egoístas, e que o ser humano seria capaz de qualquer coisa para suprir esses desejos. O estado forte era aquele governado por homens fortes, que não tinham medo da maldade alheia.

Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778), por sua vez, exercia uma visão demasiadamente otimista, de que o homem era essencialmente bom, mas que o mundo o corrompe, produzindo ações que divergiam a essa essência. Rousseau foi um filósofo suíço que viveu o início das mudanças industriais, e do pensamento capitalista. Em sua visão otimista em relação ao mundo, defendia que a educação conforme sua própria natureza (sensorial) seria capaz de tornar o homem bom.

Ambos filósofos foram revolucionários em sua época, e desenvolveram teorias extremamente consistentes, tratando de assuntos como liberdade, natureza humana, relações sociais, etc. Vale a pena conhecer.  Sempre que me inquieto com algum tema, vou até a minha “pilha” de livros verdes da coleção Os Pensadores, para buscar peças desse quebra-cabeças.

Quando à pergunta título desse post, situações do cotidiano nos levam a questionar quaisquer enunciado de algo essencial, a princípio. Vivemos e exalamos globalização, crianças de 1 ano mexem em smartphones e tablets melhor do que eu, e bebês de poucos meses fazem pirraça mostrando pleno conhecimento do comportamento de seus pais. Sem contar com a criança de apenas 4 anos responsável por cometer homicídio, e outra criança de 4 anos, no mesmo país da “criança-homicida”, que toca peças completas de Beethoven no piano. Como pensar a essência dessas crianças?

Para provocar um pouco mais, não há nenhum fator genético conhecido por distinguir comportamentos tão marcantes, e há vezes em que os comportamentos dessas crianças não reflete os padrões dos pais ou quem conviva diretamente.

Ampliando o pensamento para a observação do cotidiano, penso mais no ser humano no mundo sem algo essencial, mas sendo formado por uma rede da qual cada um é parte, produto de encontros estabelecidos. Não relação entre sujeito e objeto, mas como parte da rede, sem essa dualidade. Esse pensamento é estabelecido por filósofos como Nietzsche, Foucault e Deleuze, para citar minhas principais leituras.

Discorrer a respeito de teorias tão extensas e complexas desses três teóricos exigirá de mim mais tempo, pois gostaria aqui apenas de provocar as inquietações que me afligem [farei em outro momento].

O que Espinosa, Nietzsche, Foucault e Deleuze têm em comum [não coincidentemente suas teorias se conversam], é uma visão não dualista do mundo, da moral e do ser humano.

Nietzsche explora a oposição de “bom” e “ruim” como construções sociais que foram se perpetuando ao longo do tempo, e escravizando o ser humano, que se distancia cada vez mais de sua natureza. Ele não acredita que há uma verdade essencial, mas que este conceito foi criado pelo homem devido seu medo da morte, e cita o conceito de fim de vida para algumas crenças. Para quem for estudar Nietzsche, Assim Falou Zaratustra é extremamente rico e de um humor sarcástico único.

Espinosa, em sua rica literatura, também discorre a respeito de “bom” e “mau”, trabalhando os conceitos de ética e moral – esse é o conceito que pratico, e que levo para a clínica.

Eu diria que Deleuze bebe dessa fonte. Comecei a estudar esses filósofos a partir do olhar de Deleuze, e apenas posteriormente debrucei nos autores para tentar me despir do olhar de Deleuze [embora devido minha barreira linguística eu ainda esbarrar nos olhares dos tradutores].

Nessa visão, não há essencialmente bom ou ruim, mas o que podem produzir os efeitos dos “encontros” . E não, os encontros não são relações, pois as relações partem do princípio de uma dualidade. O encontro considera o virtual, o que não está explícito, mas que está presente, e até mesmo os atores tecnológicos.

Não vamos esquecer de pensar que estamos no século XXI, onde a Nintendo lançou há menos de um mês (precisamente em 06/07/2016) o jogo Pokémon Go, um jogo baseado em uma série dos anos 90, em que as pessoas podem capturar animais que só existem na série em lugares reais, nas ruas, parques, estabelecimentos públicos e privados, utilizando a tecnologia de GPS e internet, além do gráfico do jogo. Como desconsiderar a tecnologia ao pensar subjetividade?

rede_complexa

Ao analisar matérias de jornal, histórias de pessoas, clínica, não há como pensar em uma essência, ou que o homem é produto da sociedade, ou que os pais determinam o comportamento dos filhos, ou que a educação é a culpada pela delinquência [para citar o termo de Foucault em Vigiar e Punir]. Vivemos em uma rede, onde não há início nem fim, mas que os pontos ão interligados entre si.

Pensar a formação de subjetividade em rede não  responde àquelas perguntas capciosas, do tipo “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha”, “Quem foi o culpado do assassinato?”, “De onde veio essa depressão?”. A ideia é possibilitar o rompimento com análises reducionista, e ampliar a ideia de subjetividade para algo mais próximo da realidade. Dirimir julgamentos como os de Pinel e Lombroso, que desconsideravam inclusive fatores explícitos mesmo naquela época, mas não era da concepção dele de que fatores migratórios, sociais, etc, pudessem justificar os perfis por eles estabelecidos.

Enfim, meus questionamentos ainda estão por aqui, e espero que permaneçam. No momento em que eles se descansarem, posso me considerar detentora de uma verdade, o que não quero jamais.


DELEUZE, Gilles. Espinosa – Filosofia Prática. Escuta, 2002.

DELEUZE, Gilles. Foucault. Brasiliense, 2005.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Vozes, 2012.

HOBBES, Thomas. Os pensadores. Nova Cultural, 1999.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falava Zaratustra. Escala, 2013.

ROUSSEAL, Jean-Jacques. Os pensadores. Nova Cultural, 2000.

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