Pais: Vivam as vitórias de seus garotos

Vivemos cobranças desde nossa infância, o momento de andar, o momento de falar, o momento de aprender a ler. E já nesses períodos, somos condicionados a esperar pelo fim sem comemorar as conquistas do “entre”, especialmente quando não respondemos às expectativas do outro. Passou de um ano e ainda não andou, é motivo de cuidados e preocupação. Passou dos três e não falou, os pais se desesperam. Aos seis anos ainda não foi alfabetizado (e essa idade está diminuindo nas expectativas dos familiares), já se busca um diagnóstico.

Crescemos um pouco mais, e as cobranças continuam, com a aprovação na escola no fim de ano, sem ficar de recuperação ou prova final, preferencialmente mantendo as melhores médias da classe. Quando os aprendizados são comemorados durante o percurso? Cada livro lido, cada redação produzida, o trabalho apresentado à frente da classe, as perguntas durante as aulas para sanar dúvidas, o conteúdo aprendido, a aprovação na disciplina após a prova final – todas são conquistas “intermediárias”, mas são consideradas menores e menos relevantes do que as citadas no início do parágrafo.

Precisamos aplaudir mais aos nossos filhos, talvez na mesma medida que realizamos cobranças. Tudo isso é importante, determinar o que pode  e o que não pode, o que deve, os limites, mas também incluir o reconhecimento das “pequenas vitórias”.

Entendemos que nossos jovens vivem uma sociedade cheia de dramas e desesperanças, a geração de muita informação (gosto muito desse tema por Pierre Levy – falarei mais em outro post), e um dos grandes dramas vividos por essa geração é a demora. O tempo voa, mas tudo o que o jovem “precisa” construir demanda muito tempo, e o desejo por atalhos aumenta.

Vamos parar um minuto e pensar como nossos jovens: são 12 anos de ensino regular, mais 4 anos de graduação, mais 2 de especialização. Isso é o mínimo para iniciar uma profissão com sucesso. Nesse meio tempo, são infinitas barreiras, desde o financiamento da educação, escolha profissional, ENEM/vestibular, concorrência de mercado, primeiro emprego, e mais fatores psicológicos envolvidos. Em qualquer parte dessa longa trajetória, o garoto liga o Wi-fi e vê na sua rede social o sucesso do momento, um garoto como ele que postou um vídeo popular no YouTube e está arrecadando rios de grana e reconhecimento – e muitas vezes o youtuber não tem o menor talento para fazer o que ele faz. Pouco mais tarde, outro garoto é descoberto como o jogador de futebol do momento, mimado e sem disciplina para treino, vai para a Europa faturar milhões e milhões. Outro dia, outro garoto assim como ele lidera um atentado terrorista que mara dezenas de pessoa em uma cidade dos EUA. O vencedor do BBB é protagonista da novela das oito – e ele nunca estudou interpretação, teatro e cinema.

Ao mesmo tempo, catástrofes naturais, instabilidades políticas, crise econômica, e pessoas próximas têm a vida virada do avesso por consequência desses fatores. Aquele pai ou tio que dedicou uma vida inteira à empresa, fica desempregado. A maior estatal do país incentiva demissão em massa. Etc etc etc.

E onde está o nosso garoto? Estudando arduamente para exercer uma profissão que ele tem medo de fracassar, que ele não tem certeza de ser a melhor escolha, e se ele será um apaixonado pelo que faz, mesmo sabendo que sua atuação será muito importante, esperando o dia de comemorar com sua família.

Precisamos valorizar o percurso para que o nosso garoto sinta que o que ele está fazendo tem resultados (e tem mesmo!), para não entrar de cabeça na dura cobrança da sociedade e na completa incerteza em relação ao dia seguinte.

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