Em 2021 eu sangrei

Enquanto pensava sobre o que estava havendo comigo, sangrei, antes mesmo de entender, aceitar ou rejeitar. Sangrei e tive medo de que minha vida terminasse, de que meu corpo definhasse, de não poder mais sonhar.

Sangrei em 2021 mais do que pensei ser possível, e enquanto jorrava precisei parar, deitar e esperar, sem ao menos ter chance de fazer as perguntas de julgava necessárias, e que ainda estão guardadas em meu bloco de notas. “Quando isso tudo vai terminar sem que termine comigo?”, me perguntava sem respostas.

Enquanto o colchão se moldava as costas, olhava o teto descascado. Com tantas perguntas não respondidas, eu sabia o que estava havendo, meu corpo tinha a leitura do que era aquilo tudo, o que aquelas médicas não queriam falar. Será que se eu não fizesse o repouso prescrito, aquilo terminaria mais rápido, pensava diariamente enquanto comia o que carinhosamente me levavam na bandeja para o café. Mas eu queria viver, e aqueles curtos dias pareciam ser eternidades.

Já não sabia se queria mais aquela oportunidade de ter escolhido, foram três dias da descoberta até lágrimas e sangue se misturarem à cama.

Houve uma mudança em meio a tudo isso, o encaixotar de pertences enquanto esperava todo o sangue necessário despejar-se de mim sem tirar minha própria vida. Via meus móveis sendo desmontados, transportados, remontados, tanto quanto eu, sem a mesma firmeza de outrora. O ranger das mesas antes firmes soava no tom do meu choro enquanto eu sentava esperando sangrar.

Quis pegar peso, quis correr, quis acelerar aquilo tudo para reconquistar minha vida, mas veio após a mudança. Mais um exame, e um laudo conclusivo. Parecia que algo cá dentro precisava dessa permissão para expulsar o sangue escuro que apodrecia em minhas entranhas.

Vieram grandes tsunamis de peles, de um coração que ouvi parar aos poucos e de sonhos não sonhados, que não pediram permissão para me invadir, mas precisaram daquela autorização para sair. Expulsei até ficar fraca, sem dor, com alívio. As pernas tremiam à caminho do carro, do hospital e da maca. O líquido-sólido rubro não pedia licença nem tinha noção de etiqueta, e marcava roupa, cadeira e manchava o chão.

Me abri e a mão da médica plantonista arrancou o dispositivo que falhara e cumprira sua função.

Me perguntavam do luto, que eu elaborei nos dias incertos de repouso forçado, que não foram suficientes para consolidação de uma esperança para além da espera.

E, entres amassos e deslizes, meu corpo se viu novamente invadido por um período atrasado, um teste positivo, uma alegria que não cabia no peito, um segredo difícil de ser guardado. Queria ter a chance de pensar e escolher.

Escolhi ser parceira dela para que ela crescesse em mim e para que eu pudesse ofertá-la ao mundo enquanto cumpria com minha responsabilidade solitária.

Foram algumas semanas que seguimos simbioticamente unidas, conferindo dez vezes ao dia se ela não escapolia de mim enquanto guardava segredo.

Ela ficou comigo mesmo quando sua vida parou de viver, e não quis mesmo assim deixá-la jorrar. Retive, contive, e segui com esse segredo que agora doía. Escorri em lágrimas, mas não queria soltá-la. Senti dores de parto, sofri e chorei me automedicando pelas noites enquanto encontrava posições retorcidas menos doloridas. O sangue saia pouco, um fio, quase como um recado, e a dor aumentava na segunda noite.

A dor chegou ao insuportável, e não consegui me levantar nem para pedir ajuda. As pernas dormentes, o estômago embrulhava e os vômitos me escapavam, tamanha a dor, mas em meu ventre estava retido. Fui levada, medicada, operada, e somente assim foi possível arrancar do meu útero algo que meu corpo não estava pronto para deixar ir. Sangrei sem ver.

Tive mãos fortes de um grande parceiro segurando as minhas. Ele chorou, sangrou, teve medo, dúvida, e nossos olhares cúmplices resolveram entre eles, enquanto a pele da palma de nossas mãos transpiravam amores. Ele sangrou comigo, de modos diferentes, com dores próprias dele.

Descobri formas outras de amar e ser amada, em meio ao fluir do meu corpo, que escorreu numa mistura de sangue, suor e lágrimas, encontrei abrigo no abraço de quem esteve ali comigo nos últimos anos, e desenvolveu habilidade em sustentar um corpo-líquido de mulher. Aprendi a amar sua firmeza e sensibilidade, que desmoronam sobre mim quando minhas pernas ficam firmes. Assim, nos despedaçamos e nos fazemos inteiros. Amei como nunca antes, e fui amada com uma intensidade que fez minha respiração voltar quando meus pulmões pareciam colados e sem conseguir se mover para sustentar meu corpo.

Sangrei de novo em 2021 de modos que nunca pensei ser possível, e sim, já estou pronta para encerrar esse ciclo, para deixar marcado nas cicatrizes que o tempo tatua na pele, estou pronta para percorrer os caminhos que se abrem nesse novo ciclo. Não ouso pedir um ano melhor ou dores menos doídas, mas aceito as angústias de quem pode usufruir dos benefícios que essa mesma vida vivida pode trazer.

29/10/2021
18/06/2021

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