Alpinismo

Todos diziam que ele era muito esperto. Com 9 meses já dava seus primeiros passos. Aos dois anos já falava. Ele crescia, evoluía, e já era o melhor jogador de travinha do bairro, artilheiro da rua em disparado. Corria, pulava muros, caía, levantava. Mas quando chegava em casa, ainda com o suor escorrendo na testa, a camisa amassada, os shorts com marca de terra, e o solado do pé preto por andar descalço nas ruas de asfalto, ele pegava o maior livro da coleção do seu pai, sentava no canto entre a sua cama e a escrivaninha, colocava o livro aconchegado sobre em uma grande almofada, como uma joia exposta, e ficava ali horas, passando os olhos por entre as letras e palavras que se embolaram de forma que apenas sua imaginação poderia dar conta.

– Menino! Vai tomar banho!

Ele rapidamente escondia o livro em baixo da almofada, ali mesmo naquele canto para onde ele voltaria após o jantar para terminar de tentar decifrar. Ele, já tarde da noite, passava os dedos por entre aquelas palavras, apertava bem os olhos, e cochichava bem baixinho:

– Eu preciso entender. Eu preciso entender.

E no outro dia, era joelho ralado, meninos correndo atrás dele, pois juravam que ele trapaceara manipulando os formatos de suas bolinhas de gude. Pula muro pra pegar pipa. Foge de cachorro bravo. E como todos os dias no fim da tarde, ela chega linda, com uma pequena pilha de livros em baixo do braço, o uniforme da escola impecável, aquele corpo infantil ainda sem formas, olhar marcante e o sorriso mais lindo que ele já vira. Ele poderia jurar que nunca veria tanta beleza. Olha em direção a ele como se não tivesse nada ali, olhar perdido, e o sorriso que ele era convicto em achar que era o mais lindo do mundo.

Naquele dia ele teve coragem de acenar, ela corou. Soltou na calçada a bolsa de carteiro que parecia ser maior do que ela, jogou os livros em cima, e correu para abrir o portão para a mãe dela guardar o carro. Ele acompanhou com o olhar fixo, a bola de vôlei na mão, até que ela recolhesse seu material e o portão de fechasse. Soltou a bola no chão, e ele sem escutar os palavrões deixados pelos colegas, correu para dentro de casa, para aquele cantinho no seu quarto, pegou o livro grande, o qual sequer o assunto conseguia compreender, abraçou bem forte e apertou os olhos, cochichando, sentado sobre aquela grande almofada:

-Preciso entender. Preciso aprender a entender. Preciso ser bom pra ela.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s