Os mitos do relacionamento – A Revelação

No último domingo, lendo tranquila o jornal, na praia, vejo a manchete “Psicólogos revelam os mitos sobre relacionamentos”, e meu coração gela instantaneamente. Me concentrei e abri cuidadosamente o jornal nessa parte, lendo com atenção linha a linha, parágrafo por parágrafo. Minha decepção veio antes do final da reportagem, com a vergonha e decepção por discursos sem fundamentação teórica e senso comum de colegas de profissão. Ressalto que discurso senso comum é completamente diferente de linguagem adequada ao público leitor do jornal.

Enfim, vamos às revelações! Sim, estou preparada para revelar conceitos preciosos, e isso não dignifica resolver todos os problemas do mundo.

O que são mitos?

Mitos são narrativas que explicam a origem do mundo e da vida, e fenômenos humanos e da natureza.

Os mitos existem desde os primórdios, muito antes do cristianismo, nascendo junto com a própria linguagem.

A maioria dos mitos envolvem forças sobrenaturais e figuras divinas, até mesmo para explicar aquilo que ultrapassa a capacidade humana.

O que não são mitos?

O que o referido jornal de domingo chama de mito, são na verdade conceitos populares comuns em nossa sociedade, advindos de experiências ou conceitos sociais. Não são mitos. Não envolvem personagens herói x anti-herói, nem forças divinas.

O que são relacionamentos conjugais?

Os relacionamentos conjugais não são tão antigos quanto os mitos. Esses relacionamentos referem-se a pessoas que se unem com propósito de concepção de uma vida em comum. É diferente da união puramente carnal ou das relações tribais, em que homem e mulher se unem, mas sem o propósito de um laço conjugal, mas sexual ou social. As duas partes envolvidas no relacionamento conjugal são chamados cônjuges.

Por quê temos problemas conjugais?

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Como citado, a união conjugal é uma instituição que prevê a constituição de uma vida em conjunto com outra pessoa, o que implica em duas histórias, singularidades, hábitos, opiniões, conhecimentos, sonhos e expectativas. Com isso, alguns desses fatores podem ora ou outra se chocarem.

Além disso, há todas as expectativas morais e sociais depositadas sobre o casal, e aprendidas desde de as nossas primeiras conexões sinápticas, sem contar com planejamento de contas, investimentos, dívidas. É agente demais para um relacionamento conjugal, não?

Quando nossas expectativas pessoais se chocam com conceitos e atitudes do outro, seja cônjuge ou sociedade, os problemas começam a surgir, e a proporção deles depende da nossa própria relação com o problema. Para uma mesma situação, uma pessoa pode identificar ser um problema intransponível, outra pessoa pode considerar apenas um indicador para alinhar o comportamento do casal.

O que querem dizer os “mitos de relacionamento”? Quão reais eles são? 

O que o jornal chama de mitos são conceitos como: não pode ir dormir brigado com o cônjuge, amor é escolha, os opostos se atraem.

Um dos profissionais entrevistados pelo citado jornal mencionou que “esses mitos são na verdade advindos de experiências pessoais”. Concluo, com essa sentença, de que nem são mitos, nem são mentiras.

Essas sentenças não são mentiras, mas também não são gerais. Se elas existem, algumas pessoas creem nelas por se fazerem verdades em algum momento.

O que a matéria do jornal faz? Usa de outras verdades pessoais para dizer que as primeira não são verdadeiras. Com base em que? Experiências vividas, tanto quanto as que originaram os primeiros conceitos.

Eles poderiam apenas dizer, que nem todos os opostos se atraem, mas alguns ainda se atraem. Nem todos escolhem viver o amor, algumas pessoas vão por obrigação social, mas ainda assim exercem uma escolha mesmo que entre viver e morrer.

Uau!

A verdade é essa, que as pessoas criam seus conceitos com base nas experiências sociais, podendo viver na prática algo semelhante ou diferente, e ressignificando constantemente esses conceitos. Também é importante lembrar que o relacionamento conjugal é uma instituição, com legislação específica, direitos e deveres.

Se há um conceito que faz sentido para você e seu cônjuge, não prejudicando a terceiros, o que não faz sentido é colocá-lo em cheque.

Se há um conceito com o qual é difícil para você e seu cônjuge aceitarem ou conviverem, por envolver o próprio laço a dois, pro não fazer bem a terceiros, ou por provocar conflitos morais, aí sim é necessário rever e produzir novas verdades que façam sentido e promovam saúde.

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Cuidado com reportagens que querem vender jornal. Cuidado com profissionais de saúde e qualidade de vida que utilizam de pré-conceitos para dizer o que é certo e errado. Profissionais, cuidado com o tipo de mídia que distorce e disfarça o que dizemos para que eles digam o que querem.

A revelação passa por não haver uma verdade absoluta a ser revelada, mas uma rede que nos transpassa, da qual somos partes, agentes, com nossos conceitozinhos que nos movem e se movem. Quanto aos mitos, eles tudo têm a ver com isso. Pare e pense nos mitos atuais da nossa cultura e sociedade. Quem vende revelação de verdades, vende na verdade as verdades de alguns.

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